Cortejo de um cão da lua, primeira individual de Sandra Lapage na Galeria Contempo, transforma o espaço expositivo em condição de trânsito, em campo sensível no qual as obras deixam de se oferecer como objetos estáticos para atuar como presenças em deslocamento. Nesse contexto, uma gravura de James Ensor emerge como disparador. Imagética carnavalesca que não apenas celebra a exuberância como expõe uma verdade inquietante: a de que a sociedade é inseparável de seus fantasmas, de seus resíduos de irracionalidade e de morte.
É nessa fronteira que o trabalho de Lapage adquire sua densidade singular. Sua prática dá corpo àquilo que a cultura industrial produz como resto, excedente e saturação, sem transformar essa matéria em simples índice moralizante. Cápsulas de café, lacres, brilhos industriais e superfícies laminadas retornam deslocados, mas não redimidos: conservam a memória do uso, do desejo, da circulação e do descarte. O brilho, a cor, a leveza e a maleabilidade são submetidos a estruturas de trama, repetição e pulsação nas quais a forma não neutraliza a tensão da matéria, mas a intensifica. Cada figura parece derivar da anterior, cada módulo reclama o próximo, como se o espaço se constituísse enquanto tecido de continuidades instáveis. Por isso, sua obra atravessa escultura, vestimenta, instalação e performance não por ecletismo, mas porque tais categorias já não bastam diante da complexidade material que ela convoca. Há, em tudo isso, algo de ornamento e armadura, de pele e aparato cerimonial, de corpo expandido e forma em metamorfose.
Em Não existe horizonte em São Paulo, a fronteira deixa de ser linha geográfica e torna-se um operador interno da composição, ora sugerindo passagens, ora instaurando bloqueios, ora desaparecendo. O político, aqui, não se dá como enunciado explícito, mas como regime de visibilidade — como uma maneira de organizar (e desorganizar) o mundo dentro da pintura. Ao tensionar o ponto de fuga e desativar a promessa de um horizonte pacificador, J. Pavel Herrera desmonta a narrativa da travessia como progresso e reinscreve a paisagem no campo da incerteza: uma experiência que dialoga diretamente com as condições contemporâneas de deslocamento, espera e opacidade.
Desorientação e firmeza revela uma poética da interioridade em que cor e superfície funcionam como memória e ausência. Nessas pinturas, Lilian Camelli cria atmosferas entre o familiar e o espectral, com planos rasos, matizes envelhecidas e texturas que fazem a imagem oscilar entre presença e desaparecimento. Há uma ética do gesto: Camelli testa até onde é possível desorientar a imagem sem romper o vínculo com o real, buscando representar as figuras incertas da lembrança em sua fidelidade vaga. Interiores e objetos cotidianos surgem como vestígios afetivos que resistem à plena tridimensionalidade, acentuando a tensão psicológica e a ambivalência lírica e inquietante da obra.
A coletiva “Penumbra” reúne trabalhos que se voltam a formas diversas de manipulação da luz a partir de processos como silhuetamento, encobrimento e retirada de camadas de tinta, estabelecendo um diálogo entre esses diferentes processos e o modo como refletem uma realidade nebulosa e definida pela ausência quase que completa de certezas. Com curadoria de Gabriel San Martin, a coletiva conta com mais de uma dezena de obras em pequeno, médio e grande formato que transitam entre desenho e pintura.
A mostra “De uma vez por todas”, que conta com curadoria de Gabriel San Martin, reúne trabalhos inéditos de Laura Teixeira voltados a uma leitura que integra desenho, espaço e pintura na sua produção.
Ao complexificar lógicas de simetria e de composição dos campos de cor, a artista termina por reconfigurar constantemente os limites da sua intervenção na esteira de recursos como o espelhamento e o uso de formatos atípicos. Isentos, então, de uma presença concreta no mundo, os trabalhos se esforçam por sublimar a cor e o desenho em um espaço virtualizado.
Com mais de cinco décadas de produção contínua, Luiz Dolino estabeleceu uma linguagem construtiva entrelaçada em linhas diagonais e geometrias turvas. “Ensaio de tração”, que tem curadoria de Gabriel San Martin, reúne trabalhos inéditos e pinturas presentes no livro “Inventário parcial”, que documenta visual e afetivamente a trajetória do artista e terá o seu lançamento na abertura da mostra. Ao propor um diálogo entre diferentes fases de sua carreira, a mostra destaca a continuidade da investigação formal de Dolino, centrada na experimentação com a cor e a construção espacial. O título “Ensaio de Tração” — termo da engenharia mecânica que remete ao teste de resistência e deformação de materiais — revela a constante tensão presente nas pinturas do artista, que tiram a prova dos limites do equilíbrio geométrico sem romper a sua estrutura.
Resultado do interesse do artista Bruno Neves sobre a relação entre pintura e desenho, a exposição “Linha de partida” apresenta um recorte de pouco mais de uma dezena de trabalhos inéditos em pequeno e grande formato, sob curadoria de Gabriel San Martin. Reunindo três séries de pinturas de Neves — Fulgores, Escavações e, a mais recente, Palimpsesto —, a mostra se volta a um contato ambíguo com a paisagem, a partir do qual o artista utiliza recursos como cera de abelha, incisões sobre a tela e camadas de gesso com vista a um jogo com faturas levemente espessas de tinta tensionadas pela reiteração do desenho e pela percepção ambígua da cor provocada pela incidência de luz.
Com curadoria de Gabriel San Martin, a mostra reúne mais de uma dezena de pinturas que dialogam com a espécie de resistência turva do espaço doméstico brasileiro na sua relação com a esfera pública nacional. Experimentando seja com a manipulação do suporte, com uma tridimensionalização falseada ou com transições tonais, as pinturas exploram a condição do gênero doméstico enquanto um laboratório crítico da realidade.
A produção de Renato Dib gira em torno do universo têxtil — fios, tramas, bordados e tecidos — como linguagem artística e poética. Há quase três décadas, o artista investiga o corpo e a interioridade, explorando o têxtil como metáfora e estrutura. Em “Labirinto Interior”, sua exposição mais recente, Dib une matéria e sentido, entrelaçando gênero, desejo, sexualidade e memória. Sua obra percorre do plano ao escultórico, revelando uma anatomia expandida onde o corpo, feito de tecidos, também “tece” significados. Tecidos e textos compartilham a mesma origem etimológica, e ambos constroem narrativas. O trabalho de Dib, delicado e provocador, coleciona materiais raros e cotidianos para criar um discurso visual que questiona identidades e estruturas. A boca, símbolo de expressão e expulsão, aparece como ponto de passagem entre o íntimo e o mundo, revelando o fluxo labiríntico do ser.
A mostra coletiva traça um panorama da produção recente dos artistas da galeria. Tendo como disparador um trabalho de Aldir Mendes de Souza, “cons.tru.ção” é um convite a repensar a noção de
construção no contemporâneo. O trabalho de Aldir, intitulado “A Cidade VI”, de 1979, é uma de suas incursões pela (até hoje irresolvida) querela entre cidade e campo. Entre as horizontais das plantações e
as verticais assustadoras das metrópoles, Aldir estabeleceu um léxico pessoal para tratar das resultantes visuais do progresso. Sem ser judiciosa, sua pintura nos ajuda a posicionar melhor o problema que a
exposição pretende conjecturar. Outro nome em destaque, Natan Dias – indicado ao Prêmio Pipa em 2024 -, é um artista que, junto ao ferro e ao seu significado nas culturas afrobrasileiras, repensa o construir. Em contraponto, Dolino, artista de carreira longeva, recombina diariamente um léxico exíguo, mas que parece ainda interminável.
Polifonias reúne aquarelas, pinturas e fotografias de diferentes fases datrajetória do artista, destacando sua pesquisa visual e seu processo criativo. A exposição, comcuradoria de Matheus Drumond e texto de Denise Mattar, propõe uma reflexão sobre a construção da imagem e o diálogo entre cor, forma e textura. Inspirado por experiências com fotos de Tiradentes-MG, Guerini desenvolveu uma linguagem pictórica sensível, onde tons se sobrepõem em composições quase monocromáticas. Sua obra evoca a ideia de polifonia — múltiplas “vozes” visuais que coexistem em harmonia e tensão. Longe do rigor concretista, Guerini trabalha uma geometria emotiva e atmosférica, onde camadas de cor criam ritmo e profundidade. Mesmo no campo da abstração, surgem vestígios de realidade e memória. Sua pintura é contemplativa, instaurando um universo sutil entre o visível e o intuitivo.
A mostra apresenta o trabalho de João Di Souza em diálogo com pintores brasileiros que exploraram a natureza e a paisagem. A proposta não é validar, mas criar um horizonte comparativo entre diferentes abordagens do mundo natural. João, nascido em Itabuna em 1976, aproxima-se da natureza desde a infância, mas sua pintura não busca a fidelidade ao real: parte do vegetal para criar composições formais expressivas. Sua arte transforma elementos naturais em arranjos visuais, sem compromisso com a ideia tradicional de paisagem. A exposição também revisita nomes como Baptista da Costa, Clodomiro Amazonas e Bonadei, revelando como o mundo vegetal atravessa épocas e estilos. A presença das plantas — como símbolo, matéria ou inspiração — se mostra constante, magnética e essencial,evocando o vínculo profundo entre natureza, cultura e expressão artística.
A mostra Enleve apresenta as pinturas do artista afro-caribenho J. Pavel Herrera, cubano radicado no Brasil desde 2016. Sua obra, embora sutilmente crítica, carrega em si marcas de sua trajetória, atravessada por questões de insularidade, migração, memória e diáspora africana. O mar surge como símbolo central — não apenas como paisagem, mas como elo entre geografias e histórias. Com veladuras delicadas em tinta a óleo, suas paisagens evocam o sublime, despertando no espectador uma experiência sensível e introspectiva. Cada pintura convida a uma leitura única, determinada pelo estado de espírito de quem a observa. Por meio de cores vibrantes e formas contemplativas, o artista provoca encantamento e reflexão, conectando natureza e subjetividade. Enleve é, assim, um mergulho poético no “eu” e no “nós”, revelando a potência transformadora da arte como ferramenta de consciência e pertencimento.
Ao longo de quatro décadas, Aldir Mendes de Souza construiu uma obra única que une a geometria construtiva à figuração pop, criando uma linguagem própria na arte brasileira. Médico de formação, aplicou à arte um olhar analítico e racional, buscando na ordem, na cor e no espaço uma síntese entre ciência, paisagem e espiritualidade. Sua pintura nasce de uma tradição pictórica que resiste aos modismos, explorando a beleza essencial das coisas da terra com clareza gráfica e sofisticação cromática. A partir de paisagens de cafezais, buracos negros e formas humanas, Aldir organiza territórios onde a cor se impõe como elemento central. Sua obra é ponte entre razão e mistério, figuração e abstração, tradição econtemporaneidade, reafirmando a autonomia da arte e sua
capacidade de encantar, revelar e permanecer.
A abstração de Dolino combina rigor geométrico com lirismo sensível. Mestre na pintura e profundo conhecedor da história da arte, ele constrói uma linguagem visual marcada por linhas retas, ângulos e planos, sem uso de curvas. Sua obra explora relações entre forma e cor com base na proporção áurea, criando ritmos visuais que se equilibram entre harmonia e conflito. As rupturas e deslocamentos não rompem a unidade, mas a revitalizam, contribuindo para a construção de um todo coeso e dinâmico. A cor, modulada em luz e sombra, imprime lirismo àestrutura racional. Assim, Dolino desenvolve uma geometria emotiva e vibrante, onde razão e sensibilidade se entrelaçam. Sua pintura é um canto visual que traduz ordem e poesia, oferecendo ao observador uma experiência estética profunda, equilibrada e envolvente.