Julio Primeiro

1983 | ceará

bio

Julio Primeiro desenvolve uma prática onde o pensamento plástico se articula a partir da matéria e dos ritmos vitais: suas obras são ensaios táteis sobre a passagem do tempo, a cooperação e a interseção entre o orgânico e o fabricado. Trabalhando com madeira, tecido, sementes e resina, ele constrói superfícies e objetos que guardam a memória do gesto manual e a precisão de um olhar técnico — peças que parecem crescer, secar, cicatrizar e, ao mesmo tempo, serem montadas como artefatos industriais. A textura é princípio compositivo: a porosidade da madeira contrasta com o brilho translúcido da resina; as sementes, dispostas em padrões ou dispersas, funcionam como unidades de contagem e como vestígios de ciclos biológicos; o tecido atua ora como pele, ora como mapa de dobra e tensão. Esses materiais não são meros suportes, mas agentes ativos que determinam ritmo, densidade e escala das obras. O processo de construção privilegia operações repetitivas e intervenções graduais — colagens, camadas, envernizamentos, raspagens — que revelam um tempo de trabalho onde o crescimento e a erosão coexistem. No plano conceitual, Julio articula coletividade e ciência: suas peças evocam ecossistemas e redes de cooperação, ao mesmo tempo em que incorporam uma sensibilidade experimental — medições, séries e variações controladas que remetem a procedimentos laboratoriais. A cenografia e a fotografia documental que marcaram seus primeiros passos reaparecem na maneira como organiza o espaço expositivo, transformando objetos em dispositivos de encontro e observação. O resultado é uma obra que pulsa entre o doméstico e o público, entre o artesanal e o técnico, propondo uma poética dos ciclos — nascimento, maturação, decaimento — inscrita na matéria. Julio Primeiro afirma, por meio do toque e da montagem, uma visão do mundo onde o humano participa de processos maiores, e onde a arte funciona como um laboratório sensível para pensar relações entre natureza, trabalho e comunidade.

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