Uéslei Fagundes
1987 | novo hamburgo – rs
bio
A pintura de Uéslei Fagundes nasce da convivência íntima com a matéria e com as marcas do tempo: madeiras coletadas tornam‑se suportes ativos, onde grampos, fissuras e manchas de ferrugem são incorporados como elementos compositivos que orientam ritmo, textura e cor. Essas superfícies carregam uma memória física que o artista respeita e tensiona; o gesto pictórico dialoga com as impressões do uso anterior, costurando camadas de tinta e inscrição sobre uma topografia já marcada. Suas composições combinam cenas de aparente simplicidade com inscrições prosaicas e conjecturais, criando uma escrita visual que oscila entre o narrativo e o enigmático. A presença de textos e sinais — às vezes quase ilegíveis, às vezes contundentes — atua como contraponto à materialidade rugosa do suporte, estabelecendo tensões entre superfície e sentido, promessa e permanência. O resultado é um imaginário suspenso, onde o cotidiano se torna índice de temporalidades mais longas. No conjunto, a obra de Uéslei propõe uma poética da conservação e do reaproveitamento: cada peça é um encontro entre o encontrado e o pintado, entre a memória inscrita na madeira e a intervenção que a reconfigura. A pintura, assim, não apenas representa, mas preserva e transforma vestígios, convidando o olhar a ler camadas de história e a reconhecer, nas fissuras e nos grampos, a presença contínua do tempo.